Amizade, treva luminosa — inimizade, luz trevosa

O pai do Contra Impugnantes, Sidney Silveira, publicou um dos seus maiores textos, em minha modesta opinião, sobre o tema da Amizade. É uma bobagem copiar e colar o texto aqui, que está lá para ser lido por todos, como o resto de seus artigos; mas é esta a minha forma de agradecimento e reconhecimento por este e muitos outros artigos do filósofo carioca, que me são tão 

Amizade, treva luminosa — inimizade, luz trevosa

A Vieira, palavra vivente.
Sidney Silveira
Amizade é benevolência no mistério, pois sempre haverá, entre verdadeiros amigos, zonas de sombra a serem preenchidas pelo amor. Na amizade, a escolha do bem da pessoa amada é concomitante com a impossibilidade de que esta possa ser conhecida perfeitamente por quem a ama — dado o caráter impenetrável dos corações humanos. Noutras palavras, quando uma pessoa decide entrar em comunhão amigável com outra, a vontade preenche, numa aposta confiante, as lacunas que a inteligência não consegue suprir, e por este motivo entre amigos não existe o esfíngico “decifra-me, ou te devoro”, mas um bondoso “sirvo-te, porque te amo”. Pelo menos esta é a tendência, conforme a amizade vai depurando-se do que pode azedá-la: vícios e incompreensão.
Estamos falando, evidentemente, da amizade humana. Esta não é elucidação de um enigma, mas livre entrega ao insondável que há no outro, pelo menos neste mundo de escuridão entremeada de luz. Só poderia haver identidade absoluta entre conhecer e amar se a inteligência de quem ama fosse capaz de esgotar o que há de inteligível no ente amado, conhecê-lo de maneira perfeitíssima. Ocorre que nenhuma pessoa humana é capaz disso, portanto o amor sempre estará, para nós, permeado de camadas de mistério. Somente uma inteligência suma, que não pode ser outra senão a de Deus, ama vendo tudo; nós amamos vislumbrando algo.
Algo que damos por bastante, pois um coração de amigo sacia-se com facilidade.
Deus, a infinita grandeza em três Pessoas, como ensina o dogma católico, torna amáveis as coisas que ama; nós, a pequenez encarnada, como aponta a evidente contingência conformadora da nossa existência, nos tornamos amáveis ao amar. Em contrapartida, quem não sabe amar vai fazendo-se odiável, e a medida de tal ódio é um egolátrico querer, fora do direito moral. Apelemos à seguinte fórmula: a amizade divina dá sem pedir, e quando pede dá;[1] a amizade humana pede ao dar, e dando sempre sonega; a inimizade exige sem poder, e não podendo usurpa. Em síntese, o amor em quem não carece de nada é entrega pura; o amor em quem carece de muitas coisas é súplica, mesmo quando entrega; por sua vez, o desamor dissimula quando oferece, e cobra quando pede. Neste último caso, trata-se do áspero caule que traz em si o fermento da desesperança, do medo e da traição.
Ora, ninguém trai sem antes ter sido amigo. Sem dúvida, trata-se de uma amizade medíocre porque feita de desconfiança, que é uma espécie de medo desgovernado; feita da negação do mistério; feita da incapacidade de esperar o bem em meio aos males inerentes à condição humana — afinal de contas, atire a primeira pedra o amigo que, numa relação longa, pode dizer em sã consciência que nunca pecou contra a amizade, seja com palavras, seja com omissões, seja com pensamentos. Mas o caso dos traidores de todos os tempos é bem mais dramático: eles tentaram amar, mas não estavam limpos o suficiente para livrar-se do egoísmo, realidade espiritual insaciável por natureza. “Porque ele sabia qual era o que o ia entregar, e por isso disse: ‘Não estais todos limpos”. (Jo. XIII, 11) Amaram com os seus defeitos, mas estes eram graves o suficiente para matar a amizade.
Quem não percebe a diferença de gênero entre a negação de Pedro e a traição de Judas está impossibilitado de compreender o que aqui se diz.
Prova-se a amizade nas questões importantes, e não nas miudezas cotidianas, pois tantas são as falhas dos homens que se uma amizade fosse medida por coisinhas pequenas nos manteríamos todos em permanente estado de guerra. Neste ponto, estamos no núcleo da benevolência misteriosa a que se aludiu no começo deste breve texto.
Uma benevolência semelhante ao raio de trevas luminosas, que é como o magnífico Pseudo Dionísio Areopagita se referia a Deus.
_______________________________________

1- Só metaforicamente se pode dizer que Deus pede algo ao homem, porque qualquer pedido Seu é preceptivo, pedagógico e moralmente imperioso, a um só tempo. O “não” de qualquer criatura a um pedido do Criador é, na prática, escravizadora desobediência a um princípio. É negação autodestrutiva, recusa da realidade. Todos os “pedidos” de Deus, constantes ou não da Escritura, são dádivas — porque o Ser qualitativamente infinito, ao agir, não pode fazê-lo senão doando algo de si.

Pois muito bem: não havendo nada fora d’Ele, porque “Deus immediate est in omnibus per essentiam, praesentiam et potentiam”, pode-se dizer que a Sua ação é sempre um transbordar metafísico.

Link para o artigo original.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s