O Herege, por Gilbert Keith Chesterton.

Nota: Este artigo foi publicado em uma edição de 2014 da Gilbert Magazine, com o título original “The Heretic” e me calou profundamente. Talvez por estar naquela altura relendo A História das Grandes Heresias, do Belloc; talvez por que o Sínodo convocado por Papa Francisco para discutir como acolher na Igreja de Cristo o adultério e a sodomia fosse (e ainda é) o assunto do dia; talvez por estar me dando conta aos poucos que a história da Igreja poderia ser definida como a eterna luta pela salvação das almas e o combate às persistentes heresias que sempre tentaram simplificá-la, fato é que este artigo serviu para colocar muitas coisas na perspectiva correta. O que não consegui na época em que li Hereges, o livro do próprio Chesterton. Tanto assim o foi que pela primeira vez nasceu em mim a necessidade de traduzir um texto. Pois, Deus o sabe, ele bem poderá servir a outros, homens de reta razão e boa vontade, a perceberem a sutileza e astúcia com que a heresia se move rumo ao coração da Igreja, desde Simão o Mago até o combate final e com isso possam emendar suas vidas e seus erros. Nesta tarefa para mim hercúlea, de traduzir um texto do Chesterton, pedi ajuda ao amigo Pedro Erik, o bravo católico por trás do ThySelf, O Lord, que prontamente assentiu. O resultado segue abaixo, com minha eterna gratidão ao Pedro pelos nós que desatou. Se alguma parte do texto deixou a desejar, essa é de minha responsabilidade. Paz e bem.

Acima,

Acima, “A Vitória da Verdade Eucarística sobre a Heresia”, de Rubens.

O Herege
por Gilbert Keith Chesterton

Ao menos do ponto de vista humano, o teste e momento crítico da conversão é tão inteiramente racional e até mesmo racionalista, que somos tentados a ser impacientes com a falta de racionalidade com que é discutido por aí. É uma questão de saber se um certo mensageiro é ou não é o que ele diz ser.

Não é uma questão de saber se a mensagem é exatamente o que nós esperamos que ela seja; não é o caso em que não há nada nela que nos surpreenda, ou nada nela que nos intrigue, ou nada que nós mesmos alteraríamos. Não é uma questão de se deveríamos ter enviado outra mensagem; mas sim uma questão de saber quem enviou a mensagem.

Um homem me traz um bilhete ou um recado de meu amigo Robinson, solicitando que me encontre com ele no sexto poste em frente da casa com hibiscos numa determinada rua em Hungerford; e seria bem razoável para mim duvidar, em linhas gerais, se o mensageiro veio a pedido do meu amigo Robison afinal. Ele pode estar esmolando um drinque, ou me atraindo para um covil de ladrões, ou simplesmente aplicando em mim uma brincadeira de primeiro de abril. Mas não é razoável que eu acolha a mensagem como genuína, verdadeiramente vinda de meu amigo que quer um encontro e então dizer ao mensageiro “Você não acha que poderíamos marcar o encontro numa casa com girassóis ao invés de hibiscos, por que hibiscos não são minhas flores favoritas?”. Ou então “Vamos mudar do sexto para o sétimo poste por que sete é um número de sorte”. Ou ainda “Eu não imagino por que deveríamos ir à Hungerford, por isso da minha parte eu irei esperar por ele em Hampstead”.

Esta atitude não é razoável, por que não é relevante para a natureza da mensagem se a mensagem é a mais trivial ou a mais extraordinária. É lógico duvidar de uma mensagem ou dispensar um mensageiro, ou negar que o mensageiro seja um mensageiro de verdade. Mas não é lógico pedir ao mensageiro que altere sua mensagem.

Esta lógica básica, o cerne da questão, é tão familiar a nós que somos tentados à irritação, como disse, quando descobrimos o quão incomum se tornou este bom senso em nossos contemporâneos.

Mas há um ponto de vista mais sutil e compassivo a todo este assunto, e há variações e gradações de significado que podem ser encontrados neste silogismo tão simplificado. Mesmo entre os que rejeitam a mensagem, e entre os que rejeitam esdrúxulos fragmentos dela, há variados tipos e alguns mais estranhos e desafiadores. Mas apenas um deles deve ser selecionado, neste sentido prático, como um herege.

Eu não estou, obviamente, empregando nenhuma destas palavras no sentido autoritário da ciência teológica, em que elas poderiam ser relacionadas com muitos tópicos teológicos, mas eu as considero somente em sua variedade psicológica. E neste sentido prático, há um tipo de ser humano na história que talvez possa, com especial precisão, ser chamado herege. Ele não é, por exemplo, o mesmo tipo de um fanático; apesar de frequentemente o fanatismo ser o cadáver ou fóssil de uma heresia morta. Ele é alguma coisa diferente de um mero pagão não convertido; e ele é muito provavelmente o oposto do agnóstico ou do cético.

A coisa estranha sobre o herege é esta. Todos nós sabemos que a heresia na verdade é escolher e selecionar, assim como meu sujeito imaginário escolheu pedaços da carta do Sr. Robinson. Mas há uma qualidade sobre o escolher e selecionar dos hereges, em especial dos grandes heresiarcas, que nunca foi adequadamente percebida. O mistério de Maomé ou Lutero ou Calvino, ou de qualquer um dos grandes fundadores de sistemas heréticos, sempre foi este; primeiro, que eles aceitaram a ideia de um plano Divino como já estabelecido; e então eles duvidaram e depois negaram que o antigo sistema fosse divino; e terceiro e mais surpreendente de tudo, que eles nunca duvidaram por um instante da singular doutrina que eles escolheram crer em um sistema que eles recusaram, e nunca sequer pareceram desconfiar que qualquer um poderia um dia arriscar-se a negá-la.

Tal heresiarca foi sua própria testemunha para o fato de que um homem poderia negar mil coisas que foram aclamadas como Divinas. Mas ele parece não ter antecipado que alguém poderia negar alguma parte do que ele absteve-se de negar. Se ele preservou alguma relíquia dos efeitos da revolta e da destruição, ele parece crer que todos, até o fim do mundo, também irão sempre preservar a mesma parte em qualquer revolta ou destruição. Esta é a excentricidade que distingue o herege original do cético ou mesmo do crítico inconsistente. É o fanatismo com que ele afirma a coisa que ele não nega.

O seu lugar na parábola acima não é o do sujeito que recusa ou aceita o mensageiro, nem mesmo o do que realiza criativas modificações na mensagem. Ele é o sujeito que se fixa em um característica da história do mensageiro e a torna não apenas mais importante que o resto, mas mais importante que qualquer outra coisa. Ele irá se opor a todo o resto, desmentindo e blasfemando no último grau. Ele irá professar que se evite Hungerford como se lá fosse o inferno. Ele irá desfolhar todas os hibiscos que existem, como se fossem uma erva venenosa ou uma jardim de plantas peçonhentas. Mas o sexto poste não só será correto como será sagrado; uma lâmpada a guiar todos os nossos passos, uma luz a purificar todos os homens que venham ao mundo.

Isto não é um exagero, considerando a história da heresia. Por exemplo, os Puritanos tomaram o sétimo dia exatamente como o sexto poste. Em uma centena de outras maneiras eles se privam, confundem e descolorem quase todos os tipos de rituais ou pompa religiosa.

Através das sobras de seus preconceitos, milhares de homens modernos ainda são assombrados com aqueles pedaços de perfeitas más psicologia e teoria educacional; a noção de que todas as cerimônias são sem significado ou obstáculos ou perigosas para a pureza. Eles manobraram para reter isto mesmo sendo devotos extremos do Velho Testamento, que é pleno de cerimônias. Ainda assim eles se agarraram numa fanática obsessão pelo Sabbath. Que era um pedaço específico, não só da tradição Cristã, mas da peculiarmente complicada e ritualizada lei Judaica. E por fim eles criaram o Sabbath Escocês, que era consideravelmente mais sombrio que o Shabbat Judaico.

A coisa estranha é que nunca parece ter-lhes ocorrido que homens poderiam negar o Shabbat assim como eles negaram o Sacramento. Isso não é simplesmente uma questão sobre a enorme tradição do Sacramento na história da Cristandade. Ele surgiria de qualquer forma a partir da condição do Sabbath na história de Jesus de Nazaré; o mais simples e objetivo apelo na história no Novo Testamento.

Seria mais fácil realizar um ataque primitivo às coisas dos Evangelhos que eles guardaram do que às coisas que eles rejeitaram. Não há simplesmente qualquer evidência de que Jesus Cristo desaprovasse os rituais. Ele sempre se referia às celebrações no Templo, que eram muito ritualizadas, como todo o serviço religioso de Seu povo. Ele introduziu as ofertas comuns e tradicionais em Suas parábolas, e sempre em um bom sentido.

A única instituição Judaica em que Ele possa ser interpretado como contestador foi o Shabbat. Ninguém o acusou de denunciar os sacrifícios ou o candelabro de sete velas; as pessoas o acusaram de blasfemar contra o Shabbat. E ainda assim, por uma enorme perturbação artificial e invertida, estes hereges típicos manobraram para aterrorizar nações inteiras com uma idolatria cega do velho Sabbath judeu; quando eles próprios estavam assustados de acender uma vela e odiavam até as sombras, ou a mística repetição, de um sacrifício.

Este é apenas um exemplo histórico; há outras centenas na história. A questão é que o herege é um fanático a respeito de uma coisa, e um cético sobre centenas de outras coisas. E ainda assim ele sempre encontra a coisa pela qual ele é fanático no sistema a respeito do qual ele é um cético.

Não há incontáveis exemplos desta contradição apenas em épocas passadas; mas existe uma forma ainda mais contraditória desta contradição nos tempos modernos; a respeito da qual eu talvez me esforce por escrever alguma coisa em uma próxima ocasião. Mas talvez seja melhor concluir aqui sobre os erros religiosos mais evidentes e viris que o Puritanismo do século XVII tenha sido talvez o último.

O Calvinista estava pronto para matar três quartos da Cristandade e morrer pela última parte. Mas ao menos ele sabia que seu fragmento favorito da Cristandade era Cristão. Nos tempos modernos estamos cercados com uma nova e mais ignorante classe de hereges, que sabe tão pouca história que não conhece sequer sua própria história; ou a história de suas próprias ideias. No fundo, porém, eles agiram pelo mesmo estranho princípio, tanto em relação as coisas em que acreditam quanto as que não acreditam. Eles não sabem de onde veio seu credo; e eles certamente ignoram para onde suas descrenças irão em seguida. Mas elas são tão divertidas que exigem serem tratadas em separado.

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